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Criptografia no armazenamento de dados - Parte 3: gestão de chaves, LGPD/GDPR e plano de ação

Criptografia no armazenamento de dados - Parte 3: gestão de chaves, LGPD/GDPR e plano de ação

Na Parte 3, saiba por que gestão de chaves é o coração da criptografia, como se conectar à LGPD/GDPR e siga um checklist prático para implementar dados em repouso.

Parte 3 de 3 – Governança e implementação

Nas partes anteriores desta série, vimos os fundamentos da criptografia e como usar criptografia simétrica e assimétrica no armazenamento de dados. Agora, vamos tratar do que realmente sustenta tudo isso: gestão de chaves, conexão com LGPD/GDPR, erros comuns e um plano prático de ação.

1. Gestão de chaves: o coração da criptografia

Criptografia sem boa gestão de chaves é, na prática, uma falsa sensação de segurança. Se a chave vaza, todo o esforço de cifrar dados perde valor.

Alguns princípios essenciais de Key Management:

1.1 Nunca guardar a chave junto dos dados

Um erro comum é armazenar a chave de criptografia no mesmo servidor (ou até na mesma pasta) em que os dados cifrados estão. Por exemplo:

  • Chaves em arquivos de configuração sem proteção;
  • Segredos hardcoded no código-fonte;
  • Variáveis de ambiente expostas a qualquer processo no servidor.

Se o atacante comprometer o servidor, terá acesso tanto aos dados cifrados quanto às chaves, quebrando toda a proteção. Em vez disso, utilize:

  • Cofres de segredos (Secrets Manager, Parameter Store, Vault etc.);
  • Serviços de KMS (Key Management Service) com controle de acesso e logs;
  • HSMs (Hardware Security Modules) quando o nível de criticidade exigir.

1.2 Rotação periódica de chaves

Rotacionar chaves reduz o impacto de um vazamento. Boas práticas incluem:

  • Definir uma política clara de periodicidade (por exemplo, a cada 6 ou 12 meses);
  • Automatizar o máximo possível a rotação para evitar erros humanos;
  • Ter um plano para recriptografar dados antigos quando necessário.

1.3 Segregação de funções

Nem toda pessoa que administra o banco de dados precisa ter acesso às chaves. E nem todo desenvolvedor deve conseguir descriptografar dados de produção.

Uma boa estratégia é separar papéis como:

  • Infraestrutura (quem cuida de servidores e redes);
  • Segurança e gestão de chaves;
  • Desenvolvimento e suporte.

Essa segregação reduz o risco de abuso interno e apoia práticas de governança mais maduras.

1.4 Monitoramento e auditoria

Registro e análise de logs são fundamentais. Alguns pontos para monitorar:

  • Quem solicitou o uso de determinada chave;
  • Quando e de qual sistema/IP partiu a requisição;
  • Em qual contexto (produção, homologação, testes).

Em uma investigação de incidente, esses registros ajudam a reconstruir o cenário com precisão e tomar decisões rápidas.

2. Criptografia alinhada à LGPD, GDPR e normas de mercado

Praticamente toda organização lida com dados pessoais em algum nível. Leis como a LGPD no Brasil e o GDPR na União Europeia exigem que empresas adotem medidas técnicas e administrativas para proteger essas informações.

A criptografia aparece nessas regulamentações como uma das principais medidas recomendadas. Alguns benefícios concretos:

  • Redução de risco regulatório: dados pessoais fortemente criptografados, com chaves bem protegidas, tendem a reduzir o impacto de incidentes do ponto de vista legal;
  • Melhor postura em auditorias: mostrar políticas de criptografia, gestão de chaves e monitoramento ajuda a demonstrar diligência;
  • Alinhamento com padrões como ISO 27001, PCI-DSS e outros, que frequentemente exigem ou recomendam criptografia em repouso.

Importante: criptografia sozinha não garante conformidade, mas é uma peça essencial de um programa estruturado de privacidade e segurança.

3. Erros comuns ao implementar criptografia em armazenamento

Algumas armadilhas se repetem em muitos projetos. Entre as mais comuns:

  1. Usar algoritmos obsoletos ou inseguros
    Algoritmos antigos, como DES ou 3DES, ou chaves com tamanho insuficiente, podem não oferecer proteção adequada hoje. Prefira padrões atuais, revisados pela comunidade e autoridades de segurança.
  2. “Inventar” algoritmos ou protocolos próprios
    Criptografia caseira é fonte frequente de vulnerabilidades. Utilize bibliotecas consolidadas, bem testadas e mantidas ativamente.
  3. Esquecer de criptografar backups e logs
    Muitas organizações protegem apenas o ambiente de produção principal, mas deixam dumps de banco, backups antigos e logs sensíveis em texto claro.
  4. Armazenar chaves em texto claro no código ou repositórios
    Commits com chaves, senhas e tokens expostos são uma das causas mais comuns de incidentes. Use cofres de segredos e boas práticas de gestão de credenciais.
  5. Ignorar o impacto em performance
    Criptografia tem custo de processamento. É preciso escolher com cuidado o que será cifrado em nível de disco, banco, aplicação ou objeto, e testar o impacto.
  6. Não testar cenários de recuperação
    Não adianta criptografar se, em um incidente, você não sabe restaurar acessos nem recuperar dados. Teste regularmente cenários de desastre e recuperação de chaves.

4. Checklist prático: por onde começar (ou evoluir) sua estratégia

Para transformar conceitos em ação, use este checklist como guia:

  1. Mapear dados sensíveis
    • Quais tipos de dados pessoais, financeiros ou estratégicos você armazena?
    • Onde eles estão (bancos, arquivos, backups, nuvem, estações de trabalho)?
  2. Classificar ativos
    • Separar dados por nível de criticidade (alto, médio, baixo);
    • Identificar o que precisa ser protegido com mais urgência.
  3. Habilitar criptografia de disco/volume quando disponível
    • Ativar criptografia nativa em volumes de nuvem;
    • Usar LUKS, BitLocker ou alternativas equivalentes em servidores e estações.
  4. Avaliar TDE nos bancos de dados
    • Verificar se o SGBD oferece criptografia transparente;
    • Entender impacto em performance, backup e restore.
  5. Definir campos sensíveis para criptografia em nível de aplicação
    • Documentos pessoais, credenciais, segredos de negócio;
    • Desenhar como cifrar/decifrar e como tratar buscas e relatórios.
  6. Implementar um serviço de gestão de chaves
    • Escolher um KMS ou cofre de segredos confiável;
    • Definir quem pode acessar cada chave e em quais ambientes.
  7. Combinar criptografia simétrica e assimétrica
    • Usar algoritmos simétricos para cifrar dados em si;
    • Usar infraestrutura assimétrica para proteger as data keys (envelope encryption).
  8. Documentar políticas e procedimentos
    • Como chaves são criadas, rotacionadas e revogadas;
    • Quem é responsável por cada etapa do processo.
  9. Monitorar e auditar
    • Registrar o uso de chaves e acessos a dados cifrados;
    • Revisar periodicamente eventos suspeitos.
  10. Treinar as equipes
    • Desenvolvedores, DBAs e times de infraestrutura devem entender o básico de criptografia;
    • Reforçar boas práticas para evitar erros clássicos (como chaves hardcoded).

5. Conclusão: criptografia como estratégia de negócio

A criptografia em dados em repouso deixou de ser um detalhe técnico para se tornar parte da estratégia de negócio. Organizações que levam esse tema a sério:

  • Reduzem a probabilidade e o impacto de vazamentos;
  • Protegem sua reputação e a confiança de clientes e parceiros;
  • Estão mais preparadas para atender LGPD, GDPR e normas de mercado;
  • Respondem a incidentes com mais clareza, rapidez e transparência.

Ao combinar criptografia simétrica para grandes volumes de dados com criptografia assimétrica e uma boa gestão de chaves, você constrói uma camada robusta de defesa, alinhada às melhores práticas do mercado.

Se a sua organização ainda não tem uma estratégia clara de criptografia em repouso, o melhor momento para começar é agora. Dê os primeiros passos com o checklist acima, evolua a arquitetura e integre a criptografia aos processos de governança de dados e privacidade.

Dica extra: se você quer ir além e estruturar governança de dados pessoais com transparência para titulares e conformidade com LGPD/GDPR, explore soluções como a Unova para centralizar consentimentos, registros e provas de conformidade.

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