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Como a criptografia protege dados em trânsito

Como a criptografia protege dados em trânsito

  • Autor: Unova Team
  • Publicado em: 24 Nov, 2025
  • Categoria: Criptografia

Entenda o que são dados em trânsito, quais riscos eles sofrem em redes e como a criptografia (TLS/HTTPS, VPNs e criptografia ponta a ponta) protege informações sensíveis.

Como a criptografia protege dados em trânsito

Quando falamos em segurança da informação, é comum pensar em antivírus, firewall e senhas fortes. Mas existe um momento crítico em que os dados ficam especialmente expostos: enquanto estão “viajando” pela rede, saindo de um dispositivo e chegando até outro. É o que chamamos de dados em trânsito.

Formulários de sites, transações financeiras, APIs, mensagens de chat, e-mails corporativos, integrações entre sistemas… tudo isso envolve dados que saem de um ponto A e chegam a um ponto B. Se esse caminho não estiver protegido, um atacante pode interceptar, alterar ou copiar essas informações.

É aí que entra a criptografia em trânsito: ela cria um “túnel seguro” entre as pontas da comunicação, dificultando a vida de quem tenta espionar o tráfego. Neste artigo, vamos entender:

  • O que são dados em trânsito e por que eles são tão visados;
  • Os principais riscos em redes locais, internet e Wi-Fi público;
  • Como a criptografia (TLS/HTTPS, VPNs, criptografia ponta a ponta) protege esse tráfego;
  • Boas práticas e um checklist para empresas que querem elevar o nível de proteção.

1. O que são dados em trânsito?

De forma simples, dados em trânsito são informações que estão sendo transmitidas entre sistemas, dispositivos ou serviços. Alguns exemplos típicos:

  • Você acessa o internet banking pelo navegador e o saldo da sua conta é enviado do servidor para o seu computador;
  • Um aplicativo mobile envia suas credenciais para uma API de autenticação;
  • Dois microserviços conversam entre si em uma arquitetura de nuvem;
  • Um colaborador acessa o sistema da empresa através de um Wi-Fi público no aeroporto;
  • Um sistema interno envia logs para uma solução de observabilidade na nuvem.

Esses dados saem de um ponto, percorrem uma rede (local, internet, VPN, etc.) e chegam ao destino. Durante esse caminho, eles podem passar por diversos roteadores, switches, proxies, firewalls e outros equipamentos. Se o tráfego não estiver protegido, qualquer ponto intermediário comprometido — ou rede mal configurada — pode se tornar uma janela de espionagem.

2. Por que dados em trânsito são tão visados?

Do ponto de vista de um atacante, interceptar dados em trânsito pode ser mais “simples” do que invadir diretamente o servidor ou banco de dados. Alguns motivos:

  • Redes Wi-Fi abertas ou mal configuradas expõem o tráfego de usuários desprevenidos;
  • Dispositivos comprometidos (roteadores, proxies, switches) podem espelhar o tráfego para o atacante;
  • Ferramentas de captura de pacotes (como sniffers) permitem observar tudo o que circula em uma rede não protegida;
  • Ataques de Man-in-the-Middle (MITM) conseguem se posicionar entre o usuário e o serviço, fingindo ser um para o outro.

Em um cenário sem criptografia, isso significa acesso direto a:

  • Usuário e senha digitados em formulários;
  • Números de cartão de crédito e dados bancários;
  • Tokens de sessão e cookies de autenticação;
  • Documentos, mensagens e arquivos enviados pela rede.

Mesmo dentro de uma rede corporativa, considerar que “rede interna é segura” é um erro perigoso. Ameaças internas, dispositivos comprometidos e acessos indevidos podem explorar tráfego interno não criptografado.

3. Principais riscos para dados em trânsito

3.1 Sniffing de rede

Sniffing é a prática de capturar pacotes de dados que passam pela rede. Em redes sem criptografia (ou com protocolos antigos, como HTTP simples ou FTP), o atacante consegue:

  • Ler conteúdo de requisições e respostas em texto claro;
  • Identificar credenciais, números de documentos e informações sensíveis;
  • Mapear quais sistemas e serviços estão sendo usados.

Ferramentas para esse tipo de captura são amplamente conhecidas e disponíveis. Por isso, dados trafegando sem proteção são um alvo fácil.

3.2 Wi-Fi público e redes desconhecidas

Conectar-se a um Wi-Fi público (aeroportos, cafés, hotéis) ou a redes desconhecidas é um risco clássico. Em muitos casos, o tráfego interno da rede não é isolado, o que permite que:

  • Outros usuários da mesma rede monitorem o tráfego de quem está conectado;
  • Um atacante monte um Access Point falso imitando a rede oficial;
  • Pacotes sejam direcionados por equipamentos mal configurados ou comprometidos.

Se o usuário acessa serviços sem criptografia adequada, o risco de exposição é alto.

3.3 Ataques de Man-in-the-Middle (MITM)

Em um ataque de Man-in-the-Middle, o atacante se coloca entre o cliente e o servidor, fazendo com que:

  • O usuário ache que está falando com o servidor legítimo;
  • O servidor ache que está falando com o usuário legítimo;
  • No meio do caminho, o atacante leia, altere ou registre todo o tráfego.

Sem criptografia adequada e validação de identidade (como certificados confiáveis), é difícil detectar esse tipo de ataque. Em alguns cenários, o atacante ainda tenta forçar o downgrade da conexão para protocolos menos seguros ou remover a camada de criptografia (SSL stripping).

3.4 Protocolos antigos e configurações fracas

Mesmo quando há criptografia, protocolos antigos ou mal configurados podem comprometer a proteção. Exemplos:

  • Uso de versões obsoletas de SSL/TLS (como SSLv3 e TLS 1.0/1.1);
  • Suporte a suítes de cifra fracas ou algoritmos quebrados;
  • Falta de verificação adequada de certificados, permitindo conexões com certificados falsos.

Nesses casos, um atacante pode explorar vulnerabilidades conhecidas ou enganar o cliente para aceitar conexões não confiáveis.

4. Como a criptografia protege dados em trânsito?

A resposta central é: criando canais de comunicação cifrados, autenticados e, quando possível, integrados com mecanismos de confiança. Os principais exemplos são:

  • TLS/HTTPS (para web, APIs e diversos protocolos de aplicação);
  • VPNs (para criar túneis seguros sobre redes inseguras);
  • Criptografia ponta a ponta (E2EE) em mensageria e comunicação;
  • TLS entre serviços em arquiteturas de microserviços.

4.1 TLS e HTTPS: o padrão da web segura

Quando você vê o cadeado no navegador e o endereço começa com https://, significa que a conexão está usando TLS (Transport Layer Security). De forma simplificada, o que acontece é:

  1. O navegador se conecta ao servidor e pede para iniciar uma conexão segura;
  2. O servidor apresenta um certificado digital, emitido por uma autoridade certificadora confiável;
  3. O navegador valida esse certificado (cadeia de confiança, validade, domínio);
  4. Cliente e servidor negociam algoritmos e trocam segredos de forma segura, geralmente usando criptografia assimétrica para estabelecer uma chave simétrica de sessão;
  5. A partir daí, o tráfego passa a ser cifrado com criptografia simétrica (rápida e eficiente) usando a chave compartilhada.

Com isso, mesmo que alguém capture os pacotes na rede, verá apenas dados cifrados — sem acesso direto ao conteúdo. Além disso:

  • A validação do certificado ajuda a garantir que você está falando com o servidor certo;
  • Mecanismos adicionais (como HSTS) dificultam ataques que tentam forçar o uso de HTTP não seguro.

4.2 VPNs: criando um túnel seguro sobre redes inseguras

Uma VPN (Virtual Private Network) cria um túnel criptografado entre o dispositivo do usuário e uma rede remota (como a rede da empresa). Esse túnel:

  • Encapsula todo o tráfego (ou parte dele) dentro de um “envelope” cifrado;
  • Protege os dados mesmo em redes Wi-Fi públicas ou ambientes hostis;
  • Permite que o usuário acesse recursos internos como se estivesse fisicamente na rede corporativa.

Protocolos modernos de VPN usam criptografia forte (como AES, ChaCha20) e combinam chaves simétricas e assimétricas para estabelecer e manter o canal seguro. Isso reduz drasticamente o risco de sniffing e MITM em redes intermediárias.

4.3 Criptografia ponta a ponta (E2EE)

Em criptografia ponta a ponta, os dados são cifrados no dispositivo de origem e só descriptografados no dispositivo de destino. Nem mesmo o servidor intermediário tem acesso ao conteúdo em texto claro.

Esse modelo é usado em diversos aplicativos de mensageria segura e chamadas de voz/vídeo. Vantagens:

  • Mesmo que o servidor seja comprometido, o atacante não tem acesso direto ao conteúdo das mensagens;
  • Reduz o risco de interceptação por intermediários ao longo do caminho;
  • Fortalece a privacidade dos usuários e a confiança na plataforma.

A E2EE combina criptografia assimétrica (para troca de chaves entre usuários) e criptografia simétrica (para proteger o conteúdo de cada mensagem, de forma eficiente).

4.4 TLS entre serviços e APIs

Não é só o tráfego entre usuário e site que precisa de proteção. Em ambientes de nuvem e microserviços, é fundamental criptografar também:

  • Comunicação entre APIs internas e externas;
  • Integrações com parceiros e terceiros;
  • Tráfego entre serviços em clusters e containers.

Aqui, o uso de mTLS (mutual TLS) é uma boa prática: tanto o cliente quanto o servidor apresentam certificados, garantindo que ambos são quem afirmam ser. Isso evita que um serviço malicioso se passe por um componente legítimo da arquitetura.

5. Boas práticas para usar criptografia em trânsito de forma correta

Apenas “ligar o HTTPS” não é suficiente. Algumas boas práticas importantes:

5.1 Usar versões modernas de TLS e cifras fortes

  • Desativar protocolos antigos (SSLv3, TLS 1.0, TLS 1.1);
  • Priorizar TLS 1.2 e 1.3 com cifras modernas (AES-GCM, ChaCha20-Poly1305);
  • Evitar algoritmos e modos considerados fracos ou obsoletos;
  • Aplicar boas práticas recomendadas por guias de hardening de TLS.

5.2 Gerenciar bem certificados digitais

  • Emitir certificados de autoridades confiáveis;
  • Automatizar renovação (para evitar expiração inesperada);
  • Proteger chaves privadas associadas aos certificados;
  • Evitar compartilhamento indiscriminado de certificados entre muitos serviços sem controle.

5.3 Adotar HSTS e boas configurações em aplicações web

  • Habilitar HSTS (HTTP Strict Transport Security) para forçar o uso de HTTPS;
  • Redirecionar automaticamente tráfego HTTP para HTTPS;
  • Evitar conteúdo misto (mixed content), onde partes da página são carregadas por HTTP.

5.4 Criptografar também o “tráfego interno”

Evite a ideia de que “dentro do datacenter” ou “dentro da VPC” tudo é confiável. Boas práticas incluem:

  • Usar TLS entre serviços internos e bancos de dados, quando possível;
  • Proteger filas, barramentos de mensagens e logs sensíveis em trânsito;
  • Tratar a rede interna como um ambiente que pode ser explorado, adotando o conceito de Zero Trust.

5.5 Pensar também no endpoint

Criptografia em trânsito protege o caminho, mas se o dispositivo de origem ou destino está comprometido, o atacante pode capturar os dados antes de serem cifrados ou depois de descriptografados. Por isso, é importante:

  • Manter dispositivos atualizados e protegidos (patches, antivírus, EDR, MDM);
  • Treinar usuários sobre phishing, malware e golpes de engenharia social;
  • Controlar acessos e privilégios nos dispositivos que manipulam dados sensíveis.

6. Conexão com LGPD, GDPR e conformidade

Leis de proteção de dados, como a LGPD no Brasil e a GDPR na Europa, exigem que organizações adotem medidas técnicas e administrativas adequadas para proteger dados pessoais.

Criptografia em trânsito é um elemento central dessa proteção, porque:

  • Reduz o risco de exposição de dados pessoais em redes internas e externas;
  • Ajuda a demonstrar diligência em auditorias e investigações;
  • Complementa controles como autenticação, autorização, registro de logs e monitoramento.

Embora a criptografia, por si só, não garanta conformidade, a ausência dela em cenários críticos pode ser entendida como negligência — especialmente quando o risco é conhecido e as soluções estão amplamente disponíveis.

7. Checklist prático: por onde começar

Se a sua organização quer reforçar a proteção de dados em trânsito, use este checklist como ponto de partida:

  1. Mapear fluxos de dados em trânsito
    • Quais sistemas trocam dados entre si? (internos, externos, parceiros);
    • Quais fluxos envolvem dados pessoais ou informações sensíveis?
  2. Verificar uso de HTTPS/TLS
    • Todos os sites e APIs expostos usam HTTPS?
    • Há redirecionamento automático de HTTP para HTTPS?
  3. Revisar versões de TLS e cifras
    • Protocolos antigos estão desativados?
    • As suítes de cifra seguem recomendações atuais de segurança?
  4. Reforçar o acesso remoto
    • Colaboradores acessam sistemas internos via VPN segura?
    • Wi-Fi corporativo está segregado e protegido com criptografia forte?
  5. Proteger comunicação entre serviços
    • Microserviços e bancos de dados usam TLS?
    • Integrações sensíveis com terceiros utilizam mTLS ou equivalentes?
  6. Gerenciar certificados de forma profissional
    • Há inventário de certificados e chaves?
    • A renovação é automatizada e monitorada?
  7. Treinar equipes
    • Desenvolvedores conhecem boas práticas de uso de HTTPS, APIs seguras e bibliotecas de criptografia?
    • Times de infraestrutura sabem configurar TLS e VPNs com segurança?

8. Conclusão: proteger o caminho é tão importante quanto proteger o destino

Proteger apenas o servidor ou o banco de dados não é suficiente se, no meio do caminho, os dados viajarem em texto claro. A criptografia em trânsito é o que garante que informações sensíveis não possam ser lidas ou alteradas por quem está “escutando” a rede.

Ao combinar TLS/HTTPS bem configurado, VPNs seguras, criptografia ponta a ponta onde fizer sentido e boas práticas de gestão de certificados e chaves, sua organização reduz de forma significativa o risco de vazamentos e ataques baseados em interceptação.

Em um cenário onde privacidade, confiança e conformidade com LGPD/GDPR são diferenciais competitivos, investir na proteção de dados em trânsito deixa de ser uma opção e passa a ser um requisito básico para qualquer operação séria no mundo digital.

Dica extra: se você já está evoluindo a proteção de dados em trânsito, vale olhar também para a visão completa da jornada dos dados: coleta, armazenamento, uso, compartilhamento e descarte. Plataformas de governança e controle de dados pessoais ajudam a conectar a camada técnica de segurança com políticas, registros e transparência para titulares.

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